Ser-se humano - texto de Ângelo Veloso
E ainda em jeito de aniversário, repesco um excerto, longo, de uma carta do meu pai, escrita a 14 de Abril de 1971, no Forte de Peniche. Esta carta toca-me especialmente porque o meu pai, fazendo uma profunda reflexão filosófica sobre a condição humana, diz que escreve como gostaria um dia de falar com as filhas.
«Há meses que ando a ler uma história universal medíocre,em 20 volumes. (Vê lá tu! Ainda me sucede, como ao personagem do Eça, dizer depois "escapou-se-me tudo") Ao longo de páginas e páginas, vão sendo engolidas gerações e gerações. Cartas quase iguais às que hoje se cruzam, foram já escritas. Transcreve a tradução duma, gravada em placas de argila há não sei quantos milhares de anos: um homem escreve a uma mulher perguntando-lhe dum filho, dos parentes, falando-lhe do seu amor, dos seus projectos e das suas preocupações. Montanhas anónimas de pó! Para quê? Às vezes, estremeço e caio no Pessoa: "Sempre uma coisa defronte da outra / Sempre uma coisa tão inutil como a outra / Sempre o impossível tão estúpido como o real / Sempre o mistério do fundo tão certo como sono de mistério da superfície / Sempre isto e sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra!" Mas não é exacto: não foram pó que ao pó regressou; não foram nada acumulando-se sobre coisa nenhuma. Tudo isto, até estes versos de Pessoa, até estas palavras, até esta inquietação angustiada, até estas grades, criaram e acumularam. Estão aqui connosco, todos,neste nosso mundo e em nós. Lembro uma frase (...) sobre as tendências"naturais" do homem. (...) É do século XVIII essa óptica de que a"civilização" afasta o homem do que lhe é natural! Pura idealização a substituir uma outa mística! A história do homem não é senão a história natural duma espécie animal: a espécie humana. Bicho sui generis, a sua história é complexa, mais rápida, multiforme, sujeita a leis também específicas. Mas ainda e sempre uma história "natural": que outra coisa poderia ser? Dito doutra forma, a natureza do homem constroi-se num processo histórico; não é qualquer coisa de fixo, transcendente: é o que historicamente vai sendo. É tolo- e é mau - reduzir a natureza do homem à bestialidade primitiva: ao viver em hordas, à meia dúzia de gritos guturais, à promiscuidade, à ainda animalidade do comer, do habitar, do sentir, do amar, do pensar. Natural também não se confunde com instintivo: negaríamos a realidade palpável do que melhor construímos e somos - ou podemos ser. À (...) citação contraponho esta: «é numa fase adiantada da história do homem que se desenvolve e se produz pela primeira vez a riqueza sensorial "humana", o ouvido musical, a vista sensível à beleza formal, em suma, os sentidos capazes de gozos já "humanos".O homem constroi-se a si próprio humano"» Outras citações ainda mais explícitas eram possíveis. O erro é empobrecer a natureza humana fixando-a num certo homem duma dada étape histórica. O crime é cobrir com o manto do"natural" (logo inevitável, logo bom) intuitos ou sensibilidades ou erros ou caracteristicas grosseiras e mesquinhas - quantas vezes, afinal, apenas a própria imagem; ou, dito doutro modo, mascarar de "natural" o que é já rejeitado pelo próprio homem, o que é já hoje historicamente desumano.Abre-se o caminho ao que se quer e a tudo...
Em quase todas as épocas, grupos de homens buscam para avida um sentido alheio ao facto essencial de pertencerem à espécie humana - ao que chamamos humanidade. E encontram-se sós, angustiados perante a morte.Alguns atiram-se à conquista cega duma felicidade a curto prazo, agora e aqui,porque a morte é imprevisivelmente certa. Foge-lhes a juventude, fogem-lhes os dias. Velhos, velhos, fazem constantemente as contas ao que ganharam ou perderam: e sempre se perdem por inteiro. Desenfreados (com mais ou menos verniz supra-espiritual ou supra-sensível), afundam-se em qualquer ópio: no haxixe ou na sensualidade ou no vinho ou no jogo ou em qualquer coisa, mais ou menos idêntica. Tentam atafulhar em cada momento uma eternidade que lhes foge.Revelam por vezes a lucidez de quem sabe que apenas se atordoa, de quem se sabe um produto alienado e quase sem culpa duma humanidade que se constrói dividida."Cadáveres adiados que procriam" - ainda F. Pessoa. O fenómeno atinge, porém, expressões mais significativas e complexas em dados momentos históricos: na decadência grega ou romana, no século XVII da Inglaterra ou XVIII da França, etc; um pouco em toda a parte, quando esta história tumultuosa que fazemos põe em causa valores estabelecidos e simultaneamente aliena e destrói os laços dos homens com o humano; quase sempre, precisamente nas épocas de rotura em que, num outro pólo, transparece um homem mais humano, se afirma mais rica e exemplar a construção da grandeza inequívoca do homem. Hoje, também e mais do que nunca: é o mundo marginal dos hippies, dos provos, dos blusões negros, e o resto - que, afinal, apenas condensam com maior virulência, como num abcesso, a desorientação de largos estractos. Mas as caracterísitcas são ainda idênticas: a desumanização, agora desenfreada, a solidão vazia vazia, o esgotamento, a loucura, o suicídio - fisico ou não. Alienados no individualismo vazio, no gozo epidérmico, saltitantes e instáveis na busca do prazer fácil, acordam cada vez mais sós, mais mortos, mais condenados. Não é uma conclusão moralizante que formulo; é a constatação do logro, da total ineficácia para construir mesmo e sobretudo uma qualquer felicidade pessoal, possível apesar de tudo. O homem só se recupera humano identificando-se com os objectivos naturais (historicamente naturais) da própria espécie: a ética humanista é válida porque é a única senda possível para essa identidade (contraditória, turtuosa e turturada, embora) do homem com a sua humanidade. Eu sei: só se vive uma vida. Individualmente é muito importante, mas não conduz a nada dar-lhe um qualquer significado imediatista, de superficie, de flor-da-pele. O encontro com a morte é irrelevante para pedaço duma humanidade que essa sim se constrói e perdura.Que construímos e em que perduramos. Naturalmente humana, breve radicalmente humana.
Escrevo-te aos supetões porque estou de faxina. Não, com certeza, com palavras abertas, não medidas, como gostava de te escrever. Mas acredita que te escrevo como gostaria um dia de falar à R e à S, isento,convicto, rebuscando dizer-lhes qualquer coisa de muito importante para a sua própria vida. Não palavras para me esconder, não palavras para cobrir fraquezas ou erros ou qualquer outra coisa. Palavras esforçadas para comunicar com exactidão o que aprendi neste "trânsito mortal". Porque contraditório ,complexo, com isto ou com aquilo, tal como sou - não faço contas.»
(excerto integrado num texto publicado no Entre as Brumas da Memória (http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2012/04/o-mae-eu-nao-posso-faltar-eu-hoje-tenho.html) e numa nota minha aqui, no Facebook)
«Há meses que ando a ler uma história universal medíocre,em 20 volumes. (Vê lá tu! Ainda me sucede, como ao personagem do Eça, dizer depois "escapou-se-me tudo") Ao longo de páginas e páginas, vão sendo engolidas gerações e gerações. Cartas quase iguais às que hoje se cruzam, foram já escritas. Transcreve a tradução duma, gravada em placas de argila há não sei quantos milhares de anos: um homem escreve a uma mulher perguntando-lhe dum filho, dos parentes, falando-lhe do seu amor, dos seus projectos e das suas preocupações. Montanhas anónimas de pó! Para quê? Às vezes, estremeço e caio no Pessoa: "Sempre uma coisa defronte da outra / Sempre uma coisa tão inutil como a outra / Sempre o impossível tão estúpido como o real / Sempre o mistério do fundo tão certo como sono de mistério da superfície / Sempre isto e sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra!" Mas não é exacto: não foram pó que ao pó regressou; não foram nada acumulando-se sobre coisa nenhuma. Tudo isto, até estes versos de Pessoa, até estas palavras, até esta inquietação angustiada, até estas grades, criaram e acumularam. Estão aqui connosco, todos,neste nosso mundo e em nós. Lembro uma frase (...) sobre as tendências"naturais" do homem. (...) É do século XVIII essa óptica de que a"civilização" afasta o homem do que lhe é natural! Pura idealização a substituir uma outa mística! A história do homem não é senão a história natural duma espécie animal: a espécie humana. Bicho sui generis, a sua história é complexa, mais rápida, multiforme, sujeita a leis também específicas. Mas ainda e sempre uma história "natural": que outra coisa poderia ser? Dito doutra forma, a natureza do homem constroi-se num processo histórico; não é qualquer coisa de fixo, transcendente: é o que historicamente vai sendo. É tolo- e é mau - reduzir a natureza do homem à bestialidade primitiva: ao viver em hordas, à meia dúzia de gritos guturais, à promiscuidade, à ainda animalidade do comer, do habitar, do sentir, do amar, do pensar. Natural também não se confunde com instintivo: negaríamos a realidade palpável do que melhor construímos e somos - ou podemos ser. À (...) citação contraponho esta: «é numa fase adiantada da história do homem que se desenvolve e se produz pela primeira vez a riqueza sensorial "humana", o ouvido musical, a vista sensível à beleza formal, em suma, os sentidos capazes de gozos já "humanos".O homem constroi-se a si próprio humano"» Outras citações ainda mais explícitas eram possíveis. O erro é empobrecer a natureza humana fixando-a num certo homem duma dada étape histórica. O crime é cobrir com o manto do"natural" (logo inevitável, logo bom) intuitos ou sensibilidades ou erros ou caracteristicas grosseiras e mesquinhas - quantas vezes, afinal, apenas a própria imagem; ou, dito doutro modo, mascarar de "natural" o que é já rejeitado pelo próprio homem, o que é já hoje historicamente desumano.Abre-se o caminho ao que se quer e a tudo...
Em quase todas as épocas, grupos de homens buscam para avida um sentido alheio ao facto essencial de pertencerem à espécie humana - ao que chamamos humanidade. E encontram-se sós, angustiados perante a morte.Alguns atiram-se à conquista cega duma felicidade a curto prazo, agora e aqui,porque a morte é imprevisivelmente certa. Foge-lhes a juventude, fogem-lhes os dias. Velhos, velhos, fazem constantemente as contas ao que ganharam ou perderam: e sempre se perdem por inteiro. Desenfreados (com mais ou menos verniz supra-espiritual ou supra-sensível), afundam-se em qualquer ópio: no haxixe ou na sensualidade ou no vinho ou no jogo ou em qualquer coisa, mais ou menos idêntica. Tentam atafulhar em cada momento uma eternidade que lhes foge.Revelam por vezes a lucidez de quem sabe que apenas se atordoa, de quem se sabe um produto alienado e quase sem culpa duma humanidade que se constrói dividida."Cadáveres adiados que procriam" - ainda F. Pessoa. O fenómeno atinge, porém, expressões mais significativas e complexas em dados momentos históricos: na decadência grega ou romana, no século XVII da Inglaterra ou XVIII da França, etc; um pouco em toda a parte, quando esta história tumultuosa que fazemos põe em causa valores estabelecidos e simultaneamente aliena e destrói os laços dos homens com o humano; quase sempre, precisamente nas épocas de rotura em que, num outro pólo, transparece um homem mais humano, se afirma mais rica e exemplar a construção da grandeza inequívoca do homem. Hoje, também e mais do que nunca: é o mundo marginal dos hippies, dos provos, dos blusões negros, e o resto - que, afinal, apenas condensam com maior virulência, como num abcesso, a desorientação de largos estractos. Mas as caracterísitcas são ainda idênticas: a desumanização, agora desenfreada, a solidão vazia vazia, o esgotamento, a loucura, o suicídio - fisico ou não. Alienados no individualismo vazio, no gozo epidérmico, saltitantes e instáveis na busca do prazer fácil, acordam cada vez mais sós, mais mortos, mais condenados. Não é uma conclusão moralizante que formulo; é a constatação do logro, da total ineficácia para construir mesmo e sobretudo uma qualquer felicidade pessoal, possível apesar de tudo. O homem só se recupera humano identificando-se com os objectivos naturais (historicamente naturais) da própria espécie: a ética humanista é válida porque é a única senda possível para essa identidade (contraditória, turtuosa e turturada, embora) do homem com a sua humanidade. Eu sei: só se vive uma vida. Individualmente é muito importante, mas não conduz a nada dar-lhe um qualquer significado imediatista, de superficie, de flor-da-pele. O encontro com a morte é irrelevante para pedaço duma humanidade que essa sim se constrói e perdura.Que construímos e em que perduramos. Naturalmente humana, breve radicalmente humana.
Escrevo-te aos supetões porque estou de faxina. Não, com certeza, com palavras abertas, não medidas, como gostava de te escrever. Mas acredita que te escrevo como gostaria um dia de falar à R e à S, isento,convicto, rebuscando dizer-lhes qualquer coisa de muito importante para a sua própria vida. Não palavras para me esconder, não palavras para cobrir fraquezas ou erros ou qualquer outra coisa. Palavras esforçadas para comunicar com exactidão o que aprendi neste "trânsito mortal". Porque contraditório ,complexo, com isto ou com aquilo, tal como sou - não faço contas.»
(excerto integrado num texto publicado no Entre as Brumas da Memória (http://entreasbrumasdamemoria.blogspot.pt/2012/04/o-mae-eu-nao-posso-faltar-eu-hoje-tenho.html) e numa nota minha aqui, no Facebook)
Nenhum comentário:
Postar um comentário